Em Sampa, falou em “moda afro”, falou em Xongani

Imigrantes africanos tomam ruas de SP e revelam diversidade de estilos

Por Pedro Diniz (colunista da Folha)
De Folha de S. Paulo
Em 21/02/2016

Entre o que se entende por moda africana e o que de fato identifica os estilos do continente existe um abismo, cujos significados de militância, ancestralidade e beleza a indústria do vestuário no hemisfério norte tenta, temporada sim, temporada não, traduzir em roupas.

Um quadrilátero do bairro da República, na região central de São Paulo, poderia servir de laboratório para as grifes. Todas as referências da cultura negra se encontram nos pequenos ateliês e boxes das galerias, em araras dispostas pelas calçadas e no corpo dos africanos recém-chegados à capital paulista.

Estima-se que haja 600 mil imigrantes vivendo em São Paulo, cerca de 4 mil deles de países como Senegal, Moçambique, Nigéria, Angola, Camarões e Congo. Uma das mais conhecidas é Diop Diamou Fallou, 58, senegalesa que se identifica como ‘Mama África’.

Assim como a maioria dos africanos que imigraram ao país, ela veio em busca de “liberdade”. Há nove anos chegou à cidade, há dois fez seu primeiro desfile, num evento no Tatuapé, e desde então vende tecidos, roupas prontas e uma infinidade de acessórios do continente.

“Vi que as pessoas se vestiam com cores e compravam tecidos no Brás [região popular de compras de São Paulo]. Pensei: por que não trazer os tecidos do Senegal? Contratei um assistente e também comecei a costurar”, diz.

Suas peças são, na maioria, os tradicionais “boubou” senegaleses (espécie de túnica com gola em “U”) e tecidos usados, por exemplo, como turbantes. As peças são quase todas estampadas com a técnica batique, a mais comum à venda em São Paulo, que consiste em um tecido de algodão pintado manualmente com uma camada de cera.

É esse mesmo tipo de tecido que usa Adji Ba, 41, que apesar de costurar, não se considera estilista. “Estilista é quem cria a moda, eu só reproduzo as roupas do meu país”, diz a senegalesa, que assim como outros imigrantes, vende o metro de tecido por cerca de R$ 30.

Além do “boubou”, várias versões do “dashiki” são procurados pelos paulistanos, segundo os imigrantes entrevistados pela Folha.

A peça, aqui mais usada por homens, consiste num blusão com gola “V” bastante estampado. A depender do país de origem, assume diferentes silhuetas e usos.

TIPO BEYONCÉ

O mistério dessa moda está exatamente na diversidade de significados de suas peças. Alguns padrões estampados nos tecidos têm valores que remetem às origens da cultura africana. Mas, segundo a camaronesa Lysette Muogo, 27, as brasileiras só querem saber de Beyoncé.

A diva pop, símbolo do empoderamento feminino e do orgulho da cultura negra nos EUA, é a referência das mulheres que procuram seus modelos de vestidos e blusas justas.

Numa loja escondida dentro de uma galeria da avenida São João, ela costura os tecidos estampados baseado nos modelos de silhueta que as clientes trazem.

“As brasileiras são as que mais me procuram, porque na maioria das vezes elas têm raízes africanas”, explica Muogo, que está no país há quase três anos.

O interesse das mulheres por esse estilo fez brotar pequenas marcas de estilistas afrobrasileiros.

No ateliê Ana Paula Xongani, em Artur Alvim, zona leste, são vendidos turbantes já amarrados e diversos modelos de “capulanas”, pedaços de tecido oriundos de Moçambique e que são amarrados na cintura ou sobre o tronco.

“Essa valorização da moda afro começou há cerca de cinco anos. Nós fazemos um recorte das roupas de diversos países e adaptamos para o corpo da mulher daqui”, explica a estilista, que diz atender clientes de Angola e Moçambique, além de brasileiros.

“Conseguimos uma contato muito importante com os imigrantes. Aprendemos com eles e eles com a gente. Trocamos conhecimento por autoestima.”

AUTOAFIRMAÇÃO

Para os imigrantes de origem africana ouvidos pela reportagem, as roupas tradicionais de seus países têm funções além da estética.

O nigeriano Domingo Israel, 31, é muçulmano e usa conjuntos de alfaiataria bordada para ir a celebrações em mesquitas e reafirmar sua religião. “Andar elegante faz parte da nossa cultura. Esse [traje] custou uns US$ 200”, diz, orgulhoso da vestimenta.

Doutor em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo, o marfinense Mohammed Aboua sente falta dos costureiros que “há em toda esquina na África” e lhe faziam roupas sob medida. “Trouxe as minhas”, diz ele.

O escudo cultural do traje típico está provocando, segundo o acadêmico, uma retomada dos valores do vestuário entre a população de imigrantes. “Seu país tem muitas referências, a mistura [de culturas] é grande. Se não cuidarmos, nossos filhos não vão ter mais referências [das próprias raízes]”.

Adji Ba, 41, vendedora de tecidos e artigos africanos na República, acredita que hoje é raro ver um homem com trajes típicos. “Há uma necessidade se incluir no ocidente, então, muitos deixam de lado a cultura. Não saio sem meu turbante”, diz ela.

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